Sobre Música Eletrônica Experimental [parte 1] _ por Alain Patrick

SOBRE MÚSICA ELETRÔNICA EXPERIMENTAL

por Alain Patrick.

(artigo em duas partes)

• I.

Estamos no final de 2022, mais de um século após o aparecimento dos equipamentos sonoros eletrônicos, creditados por muitos como o nascimento da música eletrônica. O experimentalismo na música também ultrapassa o centenário: o manifesto futurista de Luigi Russolo e Francesco Balilla Pratella chamado  ‘The Art Of Noises’ (A Arte dos Ruídos), de 1913, por exemplo, nos dá ao menos 109 anos de existência de música experimental. Todavia, tem quem considere o seu surgimento muito antes, e de origem praticamente impossível de situar, uma vez que para estes estetas, a música experimental é baseada em tentativa e erro, e na vontade de se caminhar em novas direções de estética sonora, independente de meios de criação e gênero. Ok, mas vamos nos ater ao aparecimento da música radical e da eletrônica. No caso da música radical, há uma quebra nas estruturas da tradicional música tonal ocidental, em diversos níveis. Para começar, a matéria prima da composição deixa de ser este combo de estruturas melódicas, harmônicas e rítmicas, e passa a ser o som. Além disso, o ruído também se torna objeto de exploração, tanto o acústico quanto o eletronicamente produzido. Falarei bastante a respeito do tema na abertura do meu livro Electronic Standards: O Fascinante Universo da Música Eletrônica, cujo lançamento está previsto para o ano que vem. Haverá um respeitável índice de entrevistas com importantes personagens da música, entre as quais o compositor Jorge Antunes, autor do álbum Música Eletrônica (1975), o engenheiro eletrônico Guido Stolfi, criador do primeiro sintetizador digital no Brasil (também de 1975), Suzanne Ciani, uma das pioneiras da música eletrônica de grandes audiências, e produtora do célebre som dos comerciais da Coca-Cola, Dino Vicente, que tem meio século de jornada como compositor de trilhas e produtor musical, assim como nomes bem conhecidos da cena alternativa do século XXI – Uwe Schmidt e Jung An Tagen (o primeiro tendo começado uma década antes deste milênio).

A noção do que a música eletrônica de vanguarda representou em sua origem e representa hoje não é algo simples de se assimilar. Todavia, há que se considerar alguns fatores. Para começar, é importante mencionar o enorme esforço e o poder de criação dos personagens envolvidos no aparecimento da música eletrônica, principalmente entre os anos 30 e 60, tempos em que institutos e universidades representavam a quase totalidade dos centros de criação; além disso, há que se respeitar o enorme preço que estes pagaram pela sua inovação estética, antes mesmo que houvesse qualquer sinal de que tudo aquilo pudesse se tornar música popular nas décadas futuras.

Mas como tudo aquilo se desenvolveu?

Pode-se dividir o experimentalismo na música eletrônica em três estágios essenciais:1. A criação de novos paradigmas estéticos, novas habilidades técnicas e novos meios para a criação da arte, com o desenvolvimento de novas tecnologias e novas capacidades de produção e composição, impulsionadas, grande parte das vezes, por obras escritas como ‘Sobre as Sensações do Tom’ (1863) do Hermann von Helmholtz, pioneiro em explorar a física do som;2. Um grande movimento de experimentação sonora sistemática, em locais e condições para que tudo aconteça, a exemplo de pilares como o Studio D’Essai em Paris de Pierre Schaeffer, o Studio für Elektronische Musik de Colônia onde atuaram Karlheinz Stockhausen, Gottfried Koenig e György Ligeti, a NatLab da Philips em Eindhoven onde brilharam Kid Baltan e Tom Dissevelt, e por aí vai;

3. A aceitação final deste movimento artístico-tecnológico e a sua consolidação prática e mercadológica; neste caso, podemos facilmente lembrar das trilhas de ‘Dr. Who’ (1963) pela BBC, que representou um estrondoso sucesso de público na Inglaterra, e a dos álbuns antológicos de artistas onde foi usada a estação The Original New Timbral Orchestra como os do Stevie Wonder no início dos anos 70 (Music of My Mind e Talking Book (1972), Innervisions (1973) e Fulfillingness’ First Finale (1974).

Certo. São todos pilares importantes historicamente. Mas e hoje? Como situar a música eletrônica experimental, e como entender para qual direção vai, após tantas décadas de descobertas tecnológicas e estéticas? Grande parte do foco do FONTE tentará trazer análises e entrevistas interessantes a respeito do tema, somados a belas audições. Mas obviamente, não esperem respostas prontas ou fórmulas sobre como criar música de vanguarda atualmente.(Fim da parte I / Continua)

imagem: instagram @nansaem

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