Carta a quem ainda não desconfia da televisão
Carta a quem ainda não desconfia da televisão
(e agora também do celular)
—
A história é simples: como em tantas famílias brasileiras, a televisão sempre esteve no meio da sala — e no meio da gente.
Quem me criou adora novela. E, sim, as novelas fizeram bem para os gays, para as mulheres, para tantas minorias. Elas ajudaram a normalizar afetos. Isso é verdade. E é justo reconhecer.
Mas tem um outro lado. O lado que não aparece na novela das nove. O lado que fez com que, por muito tempo, eu me sentisse sozinho dentro de casa — não porque não fosse amado, mas porque a visão de mundo de quem me criava vinha filtrada por um oligopólio que ninguém explicava que existia.
Este texto é uma tentativa de traduzir isso.
—
O método é simples: escolher o que mostrar
A TV aberta brasileira não mente. Ela é profissional demais pra isso. O problema não é a mentira. O problema é a escolha.
Ela escolhe bater 1.000 vezes num assunto pequeno. Ela escolhe passar batido num assunto gigante. Ela escolhe proteger uns, esquecer outros. Isso não é teoria da conspiração. É método.
Três exemplos recentes, todos de março de 2026:
1. O caso Vorcaro (Banco Master) – A grande imprensa martela a relação do banqueiro com o STF. O que ela omite: o cunhado dele foi o maior doador individual de Bolsonaro e Tarcísio em 2022. Nikolas Ferreira usou o jatinho dele. Ciro Nogueira era tratado como “grande amigo”. A ligação com a extrema-direita? A TV simplesmente não mostra.
2. A pesquisa distorcida – Saiu uma pesquisa Meio/Ideia. A manchete nos portais: “54% desconfiam do STF”. O que não contaram: apenas 48% conhecem o caso Master. Desses, 70% acham que o STF ficou abalado por causa desse escândalo específico. Na população total, são 33%. Ainda é relevante, mas não é a desconfiança genérica que o título vendeu. E isso elege senador.
3. A visita de Trumpista a Bolsonaro – O ICL Notícias (esquerda) noticiou: “Moraes autoriza conselheiro de Trump a visitar Bolsonaro”. Verdade. O que faltou: a autorização foi pública, dentro da lei, e Moraes negou o pedido da defesa por datas especiais. A visita será monitorada. No escuro, conspirações prosperam. Na luz, elas se revelam. Até a mídia alternativa, na pressa, pode escorregar.
—
Como a TV nos faz acreditar que é imparcial
São técnicas refinadas, construídas durante décadas:
· A embalagem vende o produto – Cenários lindos, ternos impecáveis, vozes graves. Se parece profissional, a gente acha que é verdade.
· A isonomia forçada – Colocam uma notícia ruim do governo e outra da oposição no mesmo dia. Parece justiça. Muitas vezes é falsa simetria.
· O enquadramento – Não precisam mentir. Basta escolher o ângulo. Economia melhora, mas popularidade cai um pouco? A manchete é “queda na popularidade”.
· O âncora como guardião – A figura que só lê as notícias vira um selo de confiança. Bonner saiu, Tralli entrou. A troca de rostos não muda a essência.
—
E quando a narrativa vira osso na vida real?
Lembra da “modernização” trabalhista que a TV aplaudiu? Liberaram a terceirização. Promessa: mais empregos. Resultado: precarização em massa.
Taxistas perderam direitos para aplicativos. Entregadores viraram “empreendedores” sem férias nem 13º. Famílias que contratam home care descobrem que a empresa não tem vínculo com quem cuida do idoso. A TV mostrou isso? Não. Mostrou como as reformas que eles aplaudiram estavam, na prática, dificultando a vida de famílias reais? Não.
O viés da grande imprensa não é abstração. Ele se concretiza em reformas que endurecem a vida, em votos que elegem quem aprova leis que tornam tudo mais difícil.
—
Quando outros meios tentam contar a história
Em 2019, a Vaza Jato revelou mensagens entre Moro e procuradores. A grande imprensa reagiu atacando os jornalistas, blindando os personagens. Até hoje, pouca retratação.
O cinema brasileiro, que concorre ao Oscar, denuncia os acordos entre mercado financeiro e editores. Quando a oligarquia midiática entra em guerra com parte da população, ela compra uma briga com quem busca justiça.
—
O que eu quero, de verdade
Não quero que você odeie a TV. Não quero que pare de ver novela.
Só quero que, de vez em quando, você desconfie um pouquinho.
Quando baterem muito num assunto, pergunte: “por que estão batendo tanto?”
Quando passarem rápido por outro: “por que estão escondendo?”
Quando um comentarista falar algo muito simples, muito ‘nós contra eles’: “será que é assim mesmo?”
Desconfie da embalagem bonita. Desconfie do título que você lê no celular sem clicar. Desconfie até daquele site que você confia, se ele estiver com pressa demais.
Porque o que eu quero é que você pense com a sua própria cabeça. Não com a cabeça da TV. Não com a cabeça de nenhum portal.
Essa pessoa, a TV não conhece. Eu conheço.
—
Para terminar
Não se trata de uma questão minha ou sua. Trata-se de milhões de pessoas que usam as redes para confrontar e comparar os grandes meios. É um ecossistema de mídia alternativa que fura a bolha e mostra o que a televisão esconde.
O caminho não é abandonar tudo. O caminho é comparar, questionar, complementar. Ler um título e procurar o texto inteiro. Desconfiar da pressa — tanto da grande imprensa quanto da nossa.
Isso é muito maior do que eu ou você.
—
Com carinho,
Alguém que tentou explicar
—
P.S.: Se você chegou até aqui, talvez esteja pensando: “será que eu também caio?” A resposta é: todo mundo cai. O segredo é aprender a desconfiar na medida certa. E ensinar quem a gente ama a fazer o mesmo. Compartilhe.

