“Nilüfer Yanya – Where To Look” é um bom EP

Depois de meses com dificuldade de encontrar algo que eu goste e que seja digno de ser compartilhado aqui na Fonte, acho que voltou a acontecer. Engraçado, nem o novo álbum do Giant Claw me encantou, o que tem me feito refletir bastante sobre o exercício da pesquisa. Já tinha certeza de que é uma falta de inspiração minha e não culpa do cenário musical, mas como resolver?

 

Passei o último mês consumindo tudo de novo que eu alcançava, seguindo o método que sempre segui. Mas parece que é uma questão de humor. Vocês já pararam pra perceber o quão natural é conectar a música que consumimos com imagens? Videoclipes, Cenas de filmes, cortes no Reels de algum show ou um edit. Isso é uma parada que se intensificou recentemente, mas acho q sempre aconteceu de uma forma natural, independente da mídia digital. Por exemplo, tô muito acostumado a conectar música a acontecimentos da vida, e foi esse último ano em que estive nostálgico pra caramba que serviu pra ter esse insight. Diana Ross pra mim é “It’s My House” em 2022 no ap de uma amiga. Yung Lean não faz sentido pra mim hoje, mas toco Kyoto no repeat pq quero sentir o que sentia aos 16 roubando o carro da minha mãe e me perder na estrada com os moleques até o sol nascer.

 

Não quero de forma alguma moralizar esse comportamento (inclusive, vocês também sentem ou tô viajando?), mas eu acabei me viciando em criar cenários na minha cabeça de acordo com o meu fone de ouvido, e acho que por estar tão afastado das pessoas que me inspiravam não tô conseguindo me conectar com nada novo. Faz meses que ninguém bota um som absurdo no carro, não tenho ido a festas e me sinto desmotivado demais pra montar uma playlist “potencialmente sublime”. Como que eu vou descobrir música nova? Puta merda mano, será que pra estudar precisamos estar emocionalmente saudáveis?

 

Enfim… conheci uma mulher impressionante que ocupou minha mente o dia todo. E tô escrevendo isso logo depois de ouvir o EP novo da Nilüfer Yanya. Uma vantagem de não ter o inglês como língua nativa é que a gente pode encontrar sentimentos fantasma nas músicas ao ignorar a letra dessa forma natural que a gente faz, e sugar todas as emoções que o instrumental carrega na sua natureza não figurativa. O que no caso do EP “Dancing Shoes” é um deleite. A produção é impecável, muito semelhante ao que o Rick Rubin fez na faixa “Delilah” do Marcus King ou mesmo “Meteora Blues” do Yves Tumor, onde as guitarras parecem explodir o espaço sonoro empurrando tudo que não é voz pra fora da música.

 

É um estilo de mixagem já popular há uns anos, experimental no campo da distorção e que chegou num auge com o último álbum do Mk.Gee no ano passado. O exemplo de “Delilah” cabe muito bem aqui também por conta do solo de guitarra, um dos mais legais que já ouvi justamente pelo timbre da guitarra. E os responsáveis pelo arranjo e mixagem de “Dancing Shoes” merecem muito o reconhecimento por esse EP. A voz da  Nilüfer é linda e as composições são bem legais, mas sem a textura patinada passaria batido.

Recomendo demais pra quem gostou do álbum de 2022 da Saya Gray.

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