Vanligt Folk — Dischorealism (2025)
Das cinzas de uma banda punk dinamarquesa que já não via sentido em repetir fórmulas gastas de meio século atrás, ergue-se o Vanligt Folk com um dos discos mais insubordinados e genuinamente originais de 2025.
Dischorealism não pede licença: invade o crânio com a mesma urgência de quem sabe que o tempo dos revivalismos cíclicos e do Deconstructed Club de vitrine acabou. O trio preenche o vazio com a força de um soco no peito, escapando de qualquer conjuntura morna. Eureka!
No sétimo álbum, encontraram a receita que queima: fervo, vivacidade de banda e sonoridades que parecem esculpidas em ácido e estática. Os algoritmos vão tentar empurrá-los para o cercadinho do Industrial, Disco Punk ou EBM — ignore. A ousadia deles é da ordem do excesso, e rótulo nenhum segura essa geleia geral. O que importa aqui é a sonoridade que eles encarnam, carnuda e tridimensional.
A quem interessa Dischorealism? Se Shaking The Habitual do The Knife (2013) te deixou em carne viva — e aquele álbum segue como um dos monumentos sísmicos do século —, prepare-se para sentir o chão ruir de novo. Não apenas pelo timbre pueril e endemoniado que ecoa a voz adornada de Karin Dreijer, mas por acessar um espírito avesso ao urbanocentrismo estéril, algo que a Escandinávia mantém pulsando como contracultura quase popular, enraizada nas culturas sámi, inuíte e híbridas. Tem floresta, gelo e fricção nesse som.
As bases eletrônicas chegam esmagadas, borradas, empasteladas em camadas de ácido espumante e texturas ásperas — uma linguagem que muitos vêm explorando há mais de quinze anos, mas que aqui soa revigorada. Os elementos rítmicos dançantes permanecem audíveis, porém nada óbvios, ancorados por um passo 2-step que domina a maioria das faixas como um esqueleto oculto. Sobre essa névoa tóxica, os vocais emergem como aparições.
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Parece colagem, parece bagunça, mas o resultado é coeso até a medula — eis o desafio que poucos resolveram desde o início dos anos 2010: como soar dançante e ainda alcançar algum valor musical genuíno, daqueles que fazem a pele arrepiar e o córtex entrar em curto-circuito.
E aqui vem a virada de chave: ao contrário do The Knife, o Vanligt Folk é ANTIPOLÍTICO!
Finalmente! Depois de uma era de alienação (anos 90/00) seguida por uma postura ativista quase obrigatória, o trio resolve chutar o balde de vez. O que importa é a música, e que delícia não precisar fazer sentido! É a resposta ao oportunismo de muitos.
Também ressoa forte a afinidade com as constelações sonoras de Jan Anderzen — especialmente o Kemialliset Ystävät. O finlandês é lenda subestimada; seu selo FONAL é referência para experimentalistas acústicos, psicodélicos e entusiastas do DIY. No final dos anos 2000, cunharam um termo que vestia perfeitamente sua música estranha: Future Folk. Eu colocaria Vanligt Folk sob esse guarda-chuva — não como revival, mas como um desvio lisérgico na história recente da música.

