O NOVO SEMPRE VEM !

”Mas, Marco Andreol, a música que você chama de inédita e experimental me soa ruidosa demais ou simples Ambient, daqueles que existem há cinco décadas, monótonos. Sāo dois extremos? Nāo consigo gostar.”

Ouço isso há mais de dez anos. E compreendo.

Hoje a música evolui à medida que aprendemos a explorar e expandir o campo sonoro por meio da composiçāo DINÂMICA de frequências subgraves e agudíssimas no limiar da audiçāo humana.

Isso só é possível graças ao avanço da tecnologia, em especial quando cada canal ou instrumento é percebido isoladamente. Assim, ouvimos mais elementos que nāo competem entre si. Alcançamos melhor NITIDEZ ao vencer o ”mascaramento” (termo técnico), ou seja, ao evitar que os sons se embaralhem.

A isso, grosso modo, chamamos Desenho de Som.

Assim, pelo meio da separaçāo dos sons, mais elementos podem ser integrados na composiçāo. Podemos definir o que vem à frente ou no fundo, nāo apenas por reverberaçāo e estereofonia, mas também, por exemplo, mapeando a dinâmica do que é comprimido e fazendo a música respirar.

Nāo pretendo aqui soar excessivamente técnico ou me aprofundar demais. Basta entender que a técnica proporciona evoluçāo estética.

Entāo, respondo à pergunta inicial: os critérios de qualidade mudaram. Hoje, a atençāo é direcionada a CONTRASTES, TEXTURAS, MATÉRIA SONORA, PROFUNDIDADE, PAUSA e NUANCES TIMBRÍSTICAS. Assim, superamos o Minimalismo – num contexto amplo: as bases sequenciadas automaticamente e os padrōes de bateria repetitivos – e dialogamos com a Acusmática (a música eletrônica erudita de origem europeia e canadense, nāo norte-americana).

Além disso, graças à internet, temos acesso à música de todos os continentes. Isso nos permite explorar novas ESTRUTURAS, TONALIDADES e MÉTRICAS além das ocidentais. Vivenciamos uma globalizaçāo musical positiva que inexistia há menos de vinte anos.

Fica evidente, entāo, que o Minimalismo norte-americano e alemāo, presente desde os anos 1970 na Dance Music, no Pop e no Rock, limita a dinâmica e a espacialidade por ser impermeável, uma parede de som.

Ao romper com a grade rítmica fixa, sāo os sons escolhidos pelo artista que passam a determinar a estrutura musical – uma inversāo radical em relaçāo à tradiçāo herdada do Jazz, onde a célula rítmica, geralmente ancorada na bateria, serve como base para o desenvolvimento dos outros instrumentos. Eis a ruptura essencial: A música – agora desatada das engrenagens que a governavam – desfaz-se, já nāo máquina, mas fluxo.

Sāo outros tempos. Em um mundo descentralizado, hiperindividualizado e parcialmente virtual, importa menos a experiência coletiva – seja a música pesada, calma, animada, desconstruída, etérea – cada um a experimenta em seu próprio tempo e humor. Os artistas se multiplicam e nāo mais dependem do crivo da indústria ou das grandes massas. Nesse novo paradigma multiversalizado, tudo é possível, a diversidade é infinita e todos nós podemos publicar o próprio trabalho em plataformas diversas. Em contrapartida, o desafio da divulgaçāo torna-se proporcional à liberdade de experimentaçāo.

E essa liberdade assusta quem precisa do outro para validar seu gosto e referências.

Por fim, na contramāo do progresso tecnológico, o público em geral vem consomindo música por celulares, até mesmo quem teria condiçōes de adquirir um sistema de som básico, simples, capaz de reproduzir o corpo dos graves e o brilho dos agudos.

Os melhores celulares ainda nāo emitem todas as frequências audíveis, a menos que se use um bom fone de ouvido (que nāo precisa ser caro). É preciso lembrar que os sistemas de som domésticos, comuns e acessíveis até os anos 2000 sāo incomparavelmente superiores aos celulares, mesmo assim, o mercado prioriza vender smartphones e TVs gigantes. Ao entrar em uma loja de eletrônicos vemos TVs de plasma, LED, celulares caríssimos e quase nenhuma opçāo de som doméstico. O retrocesso é enorme e chocante, quase inacreditável.

Mas a música nāo deixará de evoluir por causa do mercado.

Seu desenvolvimento vai se tornando incompreensível para a maioria das pessoas até que os raros eventos, jornalistas e DJs que educam nichos de público sejam valorizados. Viveremos esse impasse até que novas plataformas independentes escapem da sabotagem das big techs – que é a velha indústria de massa.

No entanto, é provável que, a médio prazo, este momento de liberdade e diversidade estética em que novos critérios de qualidade nāo estāo sedimentados, e ainda nāo há consenso à vista, seja mitificado.

 

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